terça-feira, 5 de abril de 2016

“O golpe vai ser dos pretos contra o racismo, contra as elites, não o contrário”

Encontro de estudantes da Uneafro contou com a presença do ator Lázaro Ramos

Por Pedro Borges Do Alma Preta

Mais de 600 jovens se reuniram no Céu Jambeiro, Guaianazes, zona leste de São Paulo, para participar da atividade organizada pela Uneafro, “Por uma Democracia de Verdade”. O evento tinha o intuito de discutir a conjuntura atual e o papel político da juventude negra.

A programação contou com uma série de atividades, desde apresentações musicais, roda de capoeira, sarau, conversa com as Mães de Maio e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, MTST, até a participação especial de Lázaro Ramos.

Sobre o evento, o ator pensa que “é importantíssimo conversar com a juventude, entender o que eles estão pensando, sentindo, quais são as novas propostas de mundo que eles trazem. Para mim, mais importante do que falar aqui, foi escutar”.

Evento25-810x540
Ator Lázaro Ramos se emociona ao falar sobre o genocídio da juventude negra
Evento25-810x540

Douglas Belchior, militante da Uneafro e um dos organizadores da atividade, explica que o debate serviu para conversar sobre o momento político vivido pelo país. Foi posta a necessidade de se opor ao golpe articulado pela direita, assim como criticar as decisões tomadas pelo governo do Partido dos Trabalhadores. “Infelizmente a gente não tem visto isso desse governo, que tem adotado a pauta da direita, a pauta dos inimigos. O golpe vai ser dos pretos contra os racistas, contra as elites, não o contrário. Os trabalhadores, as periferias, negros e negras, os LGBTs, todo esse povo que sofreu a margem tem que se organizar e promover um golpe contra a direita reacionária e racista”.


O trabalho do cursinho popular de formação permanente dos jovens de periferia foi destacado por todos que participaram do encontro, algo que parte da esquerda brasileira abandonou no último período, de acordo com Douglas. “Nosso trabalho é para que os jovens de periferia entrem na universidade e se mantenham periféricos, se mantenham negros. Que mudem a universidade e a tornem o que ela deveria ser por natureza, um lugar diverso, que coloque a sua estrutura para mudar a sociedade e não manter a estrutura”.

A Uneafro tem 42 núcleos espalhados pelo país, com a sua grande maioria localizado na Grande São Paulo. Destes, mais de 30 deles estiveram presentes na atividade de sábado. Sobre isso, Carol Fonseca, militante da organização, enaltece a oportunidade de conhecer melhor todos que fazem parte da organização. “Foi um espaço onde eu tive a oportunidade de olhar para cada pessoa que faz parte desse movimento, de ouvir, de abraçar, de expor aquilo que penso e de ver que não sou só eu, Carol, jovem negra e periférica, que acredita numa nova organização de sociedade”.

unnamed (1)

unnamed (1)
Gabriela Martins, estudante da Uneafro do núcleo Rosa Parks em São Matheus, reforçou o papel da formação de base e de momentos de união e troca de saberes entre a juventude negra. “Foi bacana, porque foi uma formação de base. Tem os núcleos e neles a gente já faz alguns debates nas formações, mas eu acredito que quando junta todo mundo, o pessoal acaba se conhecendo para fazer uma formação mais completa”.

unnamed (2)

unnamed (2)

Genocídio

Lázaro Ramos enfatizou o seu encanto com o posicionamento da juventude negra e dos movimentos autônomos de periferia. Ele acredita que a entrada na universidade e a vontade de falar por si têm construído momentos únicos, protagonizados por esse grupo social. “Quanto mais o tempo passa, mais as vozes tentam buscar o seu microfone para serem escutadas. E a periferia tem sido responsável por um movimento que me encanta muito. Quando eu vejo o movimento gay, o movimento negro, os movimentos sociais e com novo depoimento”.

O seu grande porém a ser evidenciado foi o genocídio da juventude negra. De acordo com o Mapa da Violência 2015 – Mortes Matadas por Armas de Fogo, 5.058 jovens brancos e 17.120 jovens negros foram assinados por armas de fogo no país. Para ele, “a gente regride é na quantidade de assassinatos que tem acontecido com jovens de periferia. Isso é uma coisa que a gente tem que falar e denunciar o tempo todo. Esse é o grande pesar desse momento. Essa é a grande bandeira que a gente tem que levantar, manter o jovem negro vivo, manter o jovem da periferia vivo, porque o futuro está aí e eles têm muito a contribuir com o Brasil”.

O encontro foi construído desde o início de 2016 e contou com o apoio da Secretaria de Educação da cidade de São Paulo, do Céu Jambeiro e da Secretaria Municipal de Igualdade Racial, SMPIR-SP.

Confira na íntegra a entrevista com Lázaro Ramos:

Fonte: Geledés

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Empoderamento feminino: o inspirador discurso de Michelle Obama na Argentina

Em seu discurso perante um auditório de jovens mulheres no Centro Metropolitano de Design, nesta quarta-feira (23), na Argentina, a primeira-dama dos EUA, Michelle Obama, emocionou a todos ao falar sobre a importância das mulheres derrubarem os preconceitos sexistas – que as colocam em segundo plano – e a conquistarem seus lugares no mundo.


Por Claudia Do Brasil Post

“Precisamos de mais líderes mulheres nas empresas e que criem suas próprias empresas. Líderes mulheres nos laboratórios fazendo novas descobertas que derrubem o mito de que a ciência e a matemática são coisas de homem”.

Ela relembrou, ainda, sua infância na periferia de Chicago:

“A educação foi tudo para mim. Graças aos estudos, tive oportunidades que meus pais nunca tiveram”, disse. Michelle contou que na sua adolescência “sonhava com ir à melhor universidade e ser advogada, ter um trabalho importante e ser líder na comunidade”.

Mas a vida nem sempre foi fácil para ela.

“Quando comecei a estudar, teve gente que não acreditava na minha capacidade. Dizia que eu não ia conseguir alcançar meus sonhos. Tive até professores que achavam que eu não era inteligente o suficiente e apoiavam apenas os meninos da sala. Sentia que por ser garota, minha voz tinha menos importância do que a minha aparência, do que meu corpo”, contou ela, que é graduada em Direito pela Universidade Harvard.

“Conforme fui ficando mais velha, encontrei homens que, na rua, só julgavam o meu corpo, como se eu fosse um objeto, uma propriedade – em vez de um ser humano com sentimentos”.

Ela admitiu que muitas vezes se questionou, se sentia triste diante a tanta pressão, mas que sabia que não podia fraquejar.

“Decide, então, não ouvir as vozes que me menosprezavam. Decidi ouvir minha própria voz e as dos que acreditavam em mim”.

Michelle terminou seu discurso encorajando as meninas da platéia:
“Desejo o mesmo para vocês. Insisto para que tenham a melhor educação que puderem. Não deixem que as subestimem”.

A conversa faz parte do programa “Let the Girls Learn” (“Deixem as meninas aprenderem”), lançado por Washington há um ano.

A primeira-dama também lançou recentemente uma mobilização para reunir assinaturas no mundo todo em apoio à educação de meninas que têm esse direito negado.

Com o nome de #62MillionGirls (#62MilhõesdeGarotas, em inglês), a campanha tem o objetivo de apoiar as 62 milhões de meninas pelo mundo que estão fora das escolas, sendo metade delas adolescentes.




Fonte: Geledés

quarta-feira, 23 de março de 2016

A HORA DA XEPA

Por Fernando de Barros e Silva

O governo de Dilma Rousseff parece muito próximo do fim. Depois de quarta-feira, quando Lula foi anunciado ministro e vieram a público os grampos, o país entrou em curto-circuito: o que se viu nas ruas nas 48 horas seguintes não eram mais manifestações com data e hora marcadas, mas focos de revoltas quase permanentes espalhados pelas grandes cidades, com destaque para a vigília que se instalou na avenida Paulista, em frente ao medonho prédio da Fiesp, transformado em quartel general do impeachment. Em Brasília, os manifestantes zanzavam entre o Planalto e o Congresso, entrando várias vezes em confronto com a polícia, o que amplificava a sensação generalizada de que o poder agora estava sitiado. O ódio a Lula e ao PT, que nos protestos do dia 13 havia se manifestado com toda a força retórica, transbordou, fazendo emergir nas ruas a figura doCoxa Bloc – um tipo social que vinha sendo gestado na alma profunda das manifestações “pacíficas e ordeiras”. Na semana passada, houve registros de cenas de agressão física e risco iminente de linchamento de simpatizantes do governo. É algo que tende a se reproduzir daqui para a frente.

As manifestações reativas a favor do governo (emdefesa da democracia, contra o golpe) puderam mostrar, pela primeira vez desde que a crise atingiu seu ponto de ebulição, que o desfecho será mais traumático do que podia sugerir a escalada do “fora Dilma”. Apesar da avalanche de reveses, o PT conseguiu agrupar nas ruas muita gente de suas tradicionais bases (sindicatos, movimentos sociais, classes médias). Ninguém esperava, nem mesmo os organizadores, 100 mil pessoas na mesma Paulista que havia se transformado em passarela do impeachment.

A correlação de forças, de qualquer forma, é amplamente desfavorável ao governo: o Datafolha mostrou neste domingo que 68% dos brasileiros querem o impeachment de Dilma, e a rejeição a Lula atinge espantosos 57%. Os dois, mais do que nunca, estão sitiados.

Uma coisa é certa: o momento atual não tem nada a ver com aquele da queda de Fernando Collor, em 1992. Primeiro, porque desta vez a cisão política na sociedade é profunda e está se acentuando. Collor não tinha partido, não tinha trajetória nem história públicas relevantes, não tinha lastro social. Segundo, porque o Congresso nem de longe exibe a mesma legitimidade – o presidente da Casa não tem autoridade moral para ser síndico da Papuda. Eduardo Cunha é fruto da debilidade política do governo e da conivência de parte expressiva dos meios de comunicação (ele foi, em determinado momento, e não faz tanto tempo, alçado à condição de herói nacional e ocupou, em escala menor, o lugar imaginário que hoje é de Sergio Moro). A sobrevida de Cunha na Presidência da Câmara é fruto, ainda, da cultura do compadrio disseminada no Congresso. No caso dele, o compadrio se desdobrou em gangsterismo: houve aliciamento e intimidação de colegas, mais do que simples troca de favores e instinto de proteção corporativa. E os tucanos são cúmplices desse personagem, réu da Lava Jato, acusado de corrupção e lavagem de dinheiro, com contas comprovadas na Suíça. Cunha é o “culpado útil”.

Em terceiro lugar, o day after de um possível impeachment terá que se defrontar com a instabilidade crônica que a Lava Jato passou a representar para o mundo político, a começar por Michel Temer e a oligarquia do PMDB, sem esquecer, obviamente, o menino do Rio, Aécio Neves. Mais do que isso – e para ir ao fundamental –, o processo atual difere do que ocorreu em 1992 porque aquele foi um momento de afirmação da democracia e avanço do país; agora, tudo indica que estamos vivendo um processo de fragilização da democracia e ameaça de retrocesso institucional, além da regressão social em curso.

Isso posto, o governo Dilma, a rigor, não existe mais. Constrangida pelo próprio PT a entregar a massa falida de seu mandato nas mãos de seu padrinho e tutor político, a criatura abraça o criador como dois náufragos que sucumbem um agarrado ao outro. Com a ida de Lula para a Casa Civil, o Planalto foi transformado em bunker da crise, numa espécie de Palácio da Imunidade. Não há como distinguir entre interesses privados e projeto político nessa cartada desesperada. “Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha”, dizia o Bandido da Luz Vermelha no filme de Rogério Sganzerla.

A avacalhação, no caso, se estende a Sergio Moro. Em relação a Lula, está óbvio que o juiz não agiu de acordo com o tempo processual, mas segundo a velocidade da notícia. Seu timing foi o da luta política, não o da Justiça. O primeiro grampo a vir a público, no qual Dilma trata com o ex-presidente da assinatura do termo de posse, foi divulgado pela GloboNews na tarde de quarta-feira, pouco depois da entrevista coletiva em que ela negava qualquer intenção de blindar o novo ministro. Era um grampo colhido após o fim da autorização judicial, que no entanto foi anexado ao inquérito e exposto ao país com estardalhaço. Ao perceber que havia perdido o domínio contra seu alvo principal, Moro tomou uma atitude digna dos aloprados. Tem razão Janio de Freitas ao dizer que “a ilegalidade foi ampliada com a divulgação, em meio às gravações, dos telefones particulares e das conversas meramente pessoais, que Moro ouviu e, por lei, devia manter em reserva, como intimidades protegidas pela Constituição.” Transformado em herói nas ruas, ele se fragilizou no episódio como nunca antes na história da Lava Jato.

Há muitas coisas em jogo neste momento, e uma delas é justamente o futuro da operação. Passamos a vida repetindo que a impunidade dos ricos e poderosos é um dos vexames do Brasil – “pegar peixe miúdo é fácil, quero ver prender um tubarão.” Aí está. A força-tarefa e Moro empilharam tubarões na carceragem de Curitiba. Depois que o juiz condenou Marcelo Odebrecht a quase vinte anos de prisão, seus pares que ainda não falaram estão retirando senha para entrar na fila da delação. O próprio empresário se inclina a abrir a boca a fim de reduzir sua pena. A mulher de João Santana, Mônica, e talvez o próprio marqueteiro, ambos na cadeia, podem vir a esclarecer em breve qual era a origem, o destino e a razão do dinheiro que receberam da Odebrecht em plena campanha presidencial de 2014.

Nunca se chegou tão longe no desvelamento das relações promíscuas entre os donos do poder e os donos do dinheiro. A discussão sobre as arbitrariedades da polícia, do Ministério Público e do Judiciário não é trivial e precisa ser travada. Basta mencionar o pedido de prisão contra Lula feito pelos três pândegos do MP paulista. Mas não se deve nunca perder de vista a enormidade do que está sendo trazido à tona pela versão local da Operação Mãos Limpas.

Ocorre que a boa nova da faxina pelo alto não representa, por si só, nenhuma garantia de que o país irá se tornar mais decente, em sentido substantivo. Pode muito bem ocorrer o contrário. Sem enfrentar esse paradoxo, impossível entender o que está acontecendo hoje.

Aqui, o que parece muito novo traz um monte de velharias para a ordem do dia. No rastro da Lava Jato e da debacle do ciclo petista, estão sendo destampados antigos preconceitos brasileiros, que nunca deixaram de existir, mas que agora ressurgem com inédito direito de cidadania em praça pública.

A referência ao fantasma de 1964 faz sentido. O momento atual ecoa o passado porque é inequívoco o avanço de um fascismo difuso que emana das ruas. O ódio a Lula e ao PT é a sua face mais evidente. A demonização do “perigo vermelho” é a sua dimensão alucinatória. Esse ódio e essa alucinação vêm acompanhados de um patriotismo tacanho e cafona (“meu coração é verde e amarelo”), do desprezo pelos pobres (“parasitas do Estado, massa de manobra”), do desejo de distinção (“pagamos impostos, carregamos o país nas costas”), da adoração à polícia fardada e do ardor à família, da ojeriza aos políticos e de certo pendor autoritário que se apresentam como um “exemplo de cidadania, ordem e civilidade”, conforme as palavras de um dos líderes do Movimento Vem Pra Rua em artigo na Folha, no dia seguinte à manifestação do dia 13. No mesmo texto, Rogério Chequer decretava o “fim da farra” e exaltava “a disciplina e o respeito às leis” por parte dos manifestantes.

Não se pode, é claro, generalizar. Quem faz questão de se autodenominar “gente de bem” às vezes é, de fato, uma boa pessoa. Mas tome-se, a título ilustrativo, odiscurso apoplético do historiador Marco Antonio Villa, um dos gurus do novo Brasil, durante o grande ato cívico: “Aqui tem brasileiros, aqui nós não temos medo, aqui nós mostramos que o verde- amarelo é a cor da nossa bandeira e será para todo o sempre”. Depois de chamar Lula de “cafajeste”, “desqualificado moral” e “criminoso-mor”, ele prosseguiu, com o microfone em mãos: “Só vai ter democracia no Brasil no dia em que Lula for preso, processado e condenado a regime fechado”; “ele não pode estar solto, ele ameaça as instituições e quer a guerra civil.”

Eu estava na Paulista no dia 13. Quis sentir de perto o humor dos meus compatriotas. Vi famílias, crianças e marmanjos posando felizes para selfies ao lado de policiais da Tropa de Choque, com blindados ao fundo. Vi a multidão contracenar com o helicóptero da Polícia Militar, estendendo os braços para o alto e chacoalhando as mãos a cada voo rasante sobre a avenida. Ouvi gritos de guerra contra o criador (“Lula cachaceiro, devolve o meu dinheiro!”) e contra a criatura (“Ei, Dilma, vai tomar no cu!”). Andei uns quarteirões ao lado de pessoas pacatas, gente obviamente despolitizada, entre perdida e deslumbrada com o fato de participar de um ato “a favor do Brasil”. Saí de lá com a sensação de que os petistas ainda vão ter saudades dos tucanos. À noite, conversando com um amigo, ouvi dele o seguinte: “Vai sair muito barato se essa fúria conservadora cair no colo da Marina em 2018.”

sexta-feira, 18 de março de 2016

DIREITA BRASILEIRA NÃO QUER PERDER SEUS PRIVILÉGIOS, DIZ MUJICA

ENRIQUE CASTRO-MENDIVIL: Uruguay's President Jose Mujica arrives to the summit of the Union of South American Nations (UNASUR) in Lima, November 30, 2012. REUTERS/Enrique Castro-Mendivil (PERU - Tags: POLITICS)

terça-feira, 15 de março de 2016

“Todo preconceituoso é covarde. O ofendido precisa compreender isso”, Mario Sergio Cortella

Violência urbana, desconfiança no outro, terrorismo. As ameaças do cotidiano que minam nossas forças são o tema desta conversa com o filósofo Mario Sergio Cortella. E ele sugere como agir diante das aflições sem perder a alegria de viver.



filósofo e doutor em educação Mario Sergio Cortella, 61 anos, começa a entrevista dizendo: “Hoje, o Boko Haram matou cem pessoas no norte de Camarões… Todo dia há notícias assim”. O grupo fanático que ele menciona tenta fazer da Nigéria, vizinha de Camarões, uma república islâmica. E usa a barbárie para suplantar a marginalização política, econômica e social a que fora relegado pelos últimos governos. Essa facção sanguinária se tornou conhecida do público ao sequestrar 200 meninas nigerianas numa escola, em 2014. Muitas foram estupradas. Disputam o noticiário, as degolas de civis por outro bando de radicais, o Estado Islâmico e, ainda, os rescaldos do atentado ao semanário francês Charlie Hebdo, com a rejeição generalizada aos que professam o islamismo, a religião maometana que não prega o ódio muito menos a matança.

Dialogamos com o mestre que fez carreira na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo sobre esses eventos mundiais e sobre os problemas locais que causam angústia. Entre eles, a escassez de água e a falta de luz em São Paulo e outros estados, as balas perdidas no Rio de Janeiro – que, só no primeiro mês deste ano, fizeram 30 vítimas. Em um rápido olhar sobre o quadro atual, nota-se um mundo mais rabugento, intolerante, racista e dando mostras de falência de recursos naturais. Assim, a conversa é sobre nossa impotência diante dos fatos que nos oprimem e deixam a sensação de que não podemos fazer nada para mudá-los. “Mas não é para ficar deprimido com as coisas que nos perturbam”, provoca o paranaense em seu escritório, na capital paulista. “É preciso lembrar que todas essas coisas são criações nossas, da humanidade. E devemos refletir sobre elas se quisermos um futuro mais equilibrado e saudável.” Cortella lança neste mês Educação, Convivência e Ética: Audácia e Esperança! (Cortez), livro que, como suas palavras aqui, ajuda na travessia destes tempos difíceis.

Como o seu livro entra nesse panorama de inquietação e incerteza?
Ele fala em audácia e esperança, sobre a formação de valores e a recusa à fatalidade. Nosso tempo se caracteriza por coisas bem perturbadoras. Uma delas é o tsunami informacional. Há uma torrente cotidiana de eventos, que chegam de diferentes fontes e veículos, e nos preocupam para além das nossas possibilidades de agir. Temos ciência das coisas e nada podemos fazer, o que gera angústia e impotência. Até pouco tempo atrás, uma notícia ruim envolvia somente a sua comunidade imediata. Você ia lá prestar solidariedade ou saciar a curiosidade. Não é mais assim. No entanto, do ponto de vista da violência, é preciso lembrar que o mundo está muito menos violento que no século 20 e em toda história. Dados epidemiológicos e estudos sociais provam isso. O que ocorre é que somos mais notificados hoje, além de haver uma rejeição maior à violência.

Há episódios mais veiculados na mídia, e de uma forma que leva à comoção. O ataque aos chargistas do Charlie Hebdo, na França, impactou mais os brasileiros do que as notícias sobre as polícias militares terem matado 1,7 mil jovens negros no nosso país em 2013 ou sobre 30 feridos por balas perdidas no Rio só em janeiro. Por que a dor do vizinho não nos mobiliza tanto?
Ela me obrigaria a agir e tomar uma decisão ética. Torna-se fácil prestar solidariedade a um movimento social no Sudão ou ficar com pena de uma vítima de explosão no Iraque. É bem mais simples do que lidar com o menino acampado na porta do meu prédio.

Isso exigiria mais do que consciência tranquila por devotar compaixão ao povo do Sudão. Não é?
Exato. A realidade à minha porta me impeliria a uma ação. Não é qualquer adesão meramente virtual. Tem sido comum alguém postar, nas plataformas digitais, um convite para uma passeata. As pessoas dão um like, mas não vão lá. Pensam que participaram. Assim como se sentem engajadas ao assinar um manifesto qualquer ou comprar a camiseta escrita Je Suis Charlie. A transformação de atos em bits, a virtualização das coisas ocupa várias circunstâncias da vida. É importante, mas não resolve tudo. Madre Tereza de Calcutá tem esta frase imbatível, que captura o conteúdo da sua pergunta: “Difícil é amar o próximo. Amar quem está longe é muito fácil”. A ideia do que seja o próximo é complexa. Temos a notícia sobre o que acontece no entorno de casa, mas não nos envolvemos. No fundo, isso também provoca certo desconforto. Embora esse mal-estar não afete a todos. Muitos, neste momento, estão mais preocupados com quem ficará na casa do Big Brother Brasil.

A sensação de desconforto atinge do mesmo modo os jovens e os mais velhos?
A minha geração tinha uma causa: acabar com a opressão. Dos 20 anos aos 30, sob a ditadura, queríamos democracia, liberdade de expressão e de culto, desejávamos escolher os próprios caminhos, uma sexualidade nada amarrada, uma conduta feminina que não fosse secundarizada. A geração atual não vive esses bloqueios nem tem grandes batalhas. A maior das batalhas hoje é a ambiental. Mas não interessa tanto aos novos, porque a minha geração não erotizou a ecologia. Conseguimos erotizar um jeans, um carro, uma balada, uma cerveja… Mas não a causa do meio ambiente. Ela não se tornou um desejo.

Por que a juventude não se preocupa com o fim dos recursos naturais?
Eles deveriam pensar nisso. Mas é uma causa abstrata. Ninguém via o problema da água até poucos meses atrás. Agora temos que tomar providências. A ecologia fala de algo que ao jovem não interessa, que é o futuro. Essa não é uma má geração, ao contrário, tem censo de urgência, é criativa e disponível para uma série de interfaces. Mas vive o dia como se fosse o único. Por quê? Os mais velhos disseram a eles: “Vocês não terão futuro, não haverá emprego, ar puro, segurança”. Os pais também vivem repetindo que os filhos não tiveram infância, não souberam brincar e subir em árvores, como eles. Ora, quem acredita que não tem futuro nem teve passado só enxerga a alternativa de viver o presente até o esgotamento. “Aproveite o dia”, é o lema atual. Grandes causas, como o fim da homofobia e da violência doméstica, demoram. Leva-se tempo para conquistá-las.

Em um bairro paulistano, moradores fizeram refém um funcionário da Eletropaulo. Disseram que ele só sairia dali se a luz voltasse. Em um condomínio, também da capital paulista, moradores andam pondo o ouvido na parede para fiscalizar quanto tempo demora o banho do vizinho, quantas vezes ele dá descarga ou lava a roupa. Isso pode gerar truculência? Acirra os ânimos e cria um clima de desconfiança? Ou é aceitável?
No caso do refém, é um esgotamento de paciência. O usuário diz à empresa, ali representada pelo funcionário: “Não aguento mais ficar no escuro. Não posso ouvir a mensagem gravada informando que o serviço será prestado em seis horas, depois em oito e, mais tarde, em dez horas”. O cidadão já foi enganado demais. A atitude é perfeitamente compreensível, embora possa caracterizar até cárcere privado. Quanto ao controle do banho, penso que a escassez deve se tornar um tema coletivo. Falta de água é grave. Isso é que acirra os ânimos. Num transatlântico, se a terceira classe afundar, a primeira afunda junto. Tomar conta do vizinho é o primeiro passo para organizar uma reação conjunta à falta de água. Se um denuncia o outro por desperdício – e deve haver multa para isso -, não está sendo dedo-duro, mas cuidando do bem de todos. A medida não pode, porém, se tornar uma atividade persecutória, na qual alguém assume uma autoridade que não tem e passa a fazer daquilo uma cruzada. Seria perigoso.

Os autores das ações radicais, no terrorismo, têm entre 20 e 30 anos. Eram crianças no atentado às Torres Gêmeas, em 2001, e, de lá para cá, enfrentaram preconceito e islamofobia. Viram os muçulmanos se tornarem mal recebidos no mundo, com dificuldade de entrar em diferentes países e as mulheres serem proibidas de usar o véu nas escolas. Outro dado: na França, 70% dos presos são muçulmanos. A maioria morava na periferia e, sem estudo e trabalho, cometeu pequenos ou médios delitos. O Estado falhou com eles. Qual é a sua análise sobre as duas coisas?
Não estão presos por serem muçulmanos, e sim porque são estrangeiros pobres, de uma minoria excluída, encostados nas bordas das grandes cidades da Europa. A cadeia deve estar cheia de indígenas, em Dourados (MS); de mexicanos, na fronteira com a Califórnia, nos Estados Unidos; e de sem-terra em áreas de conflito agrário no Brasil. O problema é a exclusão. O jovem muçulmano na França é muito assemelhado ao da periferia das nossas grandes cidades. A arma na mão, no nosso país, é respeito e dinheiro imediato. Na França, é o terror que oferece reconhecimento a esses meninos. Alguns islâmicos entendem o suicídio (caso do homem-bomba) como martírio. Esses jovens se dão importância desse jeito. O propósito dá sentido à vida. De certo modo, eles se ressentem do preconceito no mundo todo, não só na Europa. O véu é problema aqui também. Em Foz do Iguaçu (PR), quem estiver com ele não tira carteira de motorista. A rejeição, porém, não é de natureza religiosa. Uma muçulmana da elite usa o véu onde quiser e é até imitada. Outra coisa é a falta de trabalho para os garotos. Na Arábia Saudita, por exemplo, a economia é restrita ao petróleo, não tem indústria, comércio. Eles vão para o Exército ou cedem ao apelo de psicopatas que recrutam para o terrorismo. Mas eu não tenho uma visão catastrófica do mundo atual. Há muito mais estados com democracia do que antes. Na ausência dela, coloca-se um nível de vitamina mais elevado no terror, caso do Irã e do Iraque, em comparação com a França.

Na democracia, a liberdade de imprensa é imprescindível. Debates após o atentado ao Charlie se deram em torno do limite do direito de expressão. Pode-se ser livre e causar dor no outro?
Não deve haver limite para a liberdade de expressão. E ela não causa dor. Ali ocorreu um excesso de sensibilidade. Quando eu era menino, meu pai dizia: “Se te xingarem na rua e você for aquilo, então não é xingamento, é verdade. E, se você não for, não é contigo”. Logo, se tenho uma religião e alguém tripudia com meus símbolos, não levo em conta. Não tem a ver comigo, mas com quem fez a piada. Pena dele. A grande encrenca do fanatismo é tomar como ofensa a postura do outro. Se quer ser imbecil, seja. Eu não assinaria o Charlie Hebdo. Aquela escatologia não interessa mais. O humor inteligente está na base da recusa ao preconceito. Algo como: “Não ria de mim, ria comigo”.

As pessoas estão agressivas na internet. Ali, há todo tipo de insulto, o que abala os ofendidos. Reagir ao preconceito, dessa forma, não parece tão simples.
Todo preconceituoso é covarde. O ofendido precisa compreender isso. O preconceito tem duas fontes: a covardia e a tolice. O intolerante em relação a etnia, cor da pele, orientação sexual, religião e extrato econômico tem medo de ser o que é. Ele só se eleva quando rebaixa o outro. Necessita ver que o outro não serve e não presta para ele poder valer alguma coisa. É um fraco que teme aquele que não é igual e se sente ameaçado por ele. Além disso, ser preconceituoso é ser burro e tonto.

Hoje, há passeata para tudo. O psicanalista Contardo Calligaris escreveu que levar crianças a uma manifestação de rua parece perigoso. Mas não levar o filho é mais perigoso para o seu futuro e o seu espírito. Eles devem participar?
O omisso é cúmplice. Os pais que escondem do filho temas importantes estão furtando dele a completude na formação – e tendem a fazer da criança uma vítima de um sistema que pode ser maléfico. A família deve discutir temas sociais, sim. Se ela decide não ir à rua, deve explicar o porquê. Há pais que dizem: “Não me meto em política”. Ao agir assim, já se meteram. Isso é nocivo.

Quando símbolos fortes, que serviam de balizadores para a sociedade, se enfraquecem, aumenta a sensação de impotência. Exemplos: a Universidade de São Paulo (USP) vive uma crise financeira e científica e também moral, por ter abrigado o estupro de alunas por colegas sem que isso fosse apurado. A maior empresa pública, a Petrobras, está envolvida em escândalos e corrupção. Por que isso mina nossas forças?
Mexe com a gente porque são nossos símbolos de poder. Mas estão surgindo outros ícones, como comunidades que se conectam em blogs para cooperar; dentistas que se juntam para atender sem cobrar; instituições como Doutores da Alegria, que vão brincar com crianças em hospitais. Conheço desembargadores, em São Paulo, que saem do tribunal, colocam o nariz de palhaço e vão entreter doentes. São novos marcadores.

O que é preciso fazer para entender este momento da humanidade que vivemos?
Os chineses acham que devemos lidar com a história e não com o momento. Você só compreende o hoje se olha a história no seu desenvolvimento. É bom recordar o que falavam as avós: “Não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe”. Portanto, nada de desespero. Problemas agudos se dissolvem no tempo. Os efeitos colaterais não são insuperáveis; podemos lidar com eles. É bom lembrar que devemos ter cuidado num mundo multifacetado, multicultural e multidiverso. Por isso, não podemos nos fechar em grupos exclusivos – só católicos, só gays, só muçulmanos -, o que leva à política do gueto e dilui a ideia de humanidade. Acabar com hinos nacionais também seria bom. Em geral, dizem: “Pega, esfola, estripa, arranca, mete a espada”. Temos de enxergar uma sociedade global e interconectada. Não pelo digital e pelo econômico somente, mas pela antropologia. Ou seja, pela convivência humana. E que cada um seja capaz de olhar o outro como o outro, não como o estranho. Homens e mulheres são diferentes, não desiguais. Brancos e negros são diferentes, mas devem ter os mesmos direitos.

O papa Francisco tem opinado em conflitos entre judeus e árabes, entre nações fortes e sociedades pobres, sempre na defesa da paz e da autonomia política dos povos. Repudia o terrorismo, mas critica o insulto à fé. Denuncia que o mundo é machista com as mulheres e prega respeito aos gays. Até provocou com a frase: “Sejamos revolucionários”. Muitos dizem que é o maior estadista do momento. Concorda?
Ele cumpre uma grande tarefa. Traz à tona questões difíceis. Não mexerá na doutrina, mas no campo da moral. Ele prega o acolhimento dos excluídos. Diz “Seja revolucionário” no limite que o cristianismo romano entende como revolução. A inspiração em Jesus ou São Francisco de Assis é boa para os jovens. O papa é uma expressão de alegria. Trata temas sérios de modo leve, não é carrancudo, não olha de cima. Assumiu o papel de defesa da paz onde há conflito. Ele me faz lembrar Benedito Spinoza, filósofo judeu que propõe a ética da alegria. É algo que precisa entrar na nossa rotina. Não quer dizer que a sociedade deva seguir no vício do hedonismo, buscar o prazer em tudo o que faz, seguir na lógica de que a vida é uma festa e não requer esforço. Isso degrada nossa capacidade, que deixa de construir algo um pouco mais forte.


Fonte: Geledés